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Derradeira hora do dia. De um dia longo, desde cedo de pé, dia lúgubre e insensato. Poderia ter chovido como na semana passada, quando as vias alagaram-se e ficaram intransitáveis, mas com trânsito obrigatório. Choveu pouco, porém. Molhou na medida: os cachorros abrigados, a casa em desordem e restos de entulho de obra polvilhando o jardim. Saí de casa, para ouvir alguém bem mais velho falar sobre alguém que já morreu, mas que escreveu lindamente. Quis ficar, mas fui. Pensei: para viver aqui, nesta cidade, abrimos mão de viver a cidade. Mas hoje foi um dia sem grande inspiração.
Escrito por bruno zeni às 23h48
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acordo
Acordar de manhã, bem cedo, com o corpo anestesiado das práticas da noite anterior. Permanecer no ímã do acolchoado e ir se estendendo aos poucos rumo ao despertar longilíneo, mais amplo e relaxado. Simultaneamente, mais disposto, com vagas de calor percorrendo os membros e minha excitação de noite inteira ainda sonhando você.
Escrito por bruno zeni às 10h00
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Os sons da obra começam, estridentes, logo de manhã, por volta das seis, quando os contornos do ar, rarefeito, ainda se preservam na escuridão esvoaçante e impermanente, migrando para a claridade. Carrego os restos da noite pelo corredor até a o piso frio e as paredes de revestimento cerâmico e me agarro ao tampo e aos veios da madeira até que a água atinja de frio meu rosto que pede para ser descoberto do sono. A janela do banheiro enquadra uma grua, um helicóptero em plena viagem e os indícios da torre inacabada que apontam para cima. Ainda vejo o céu. O outono é quente e seco, mas tende ao frio progressivo, com azul permanente, sobrevivendo quanto pode e eu quero.
Escrito por bruno zeni às 21h04
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Os corredores de concreto são feitos para circulação das máquinas. Somos os outros, meros e menos. Esperamos, e quando e se possível e se insistirmos e dermos um jeito e criarmos um tempo e acharmos espaço, desfrutamos os lapsos em que é possível percorrer as alamedas que se deixam percorrer.
Escrito por bruno zeni às 17h41
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Eu agora voltei a trabalhar muito próximo de um corredor de concreto em que o ar e o som reverberam, percorridos e envoltos e produzidos por carruagens de lata.
Escrito por bruno zeni às 17h36
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Corredores de concreto funcionam como túneis de vento e circulação de carenagens de lata. Ruidosas e descomunais, em canaletas exclusivas. Calçadas exígiuas para quem se aventura a atravessar a avenida sulcada de vai e vai e vai e vai mais carros e ônibus e táxis e motos, vai, vai e vai, vai. Luzes do semáforo saltam em suas cores de sempre. Esperamos todos, por longos cinco minutos a interrupção, mágica, dos motores e movimentos antes das faixas brancas e descontínuas no chão. Atravessamos rapidamente. Alguém calculou a duração da espera, justa, para a travessia. Mais tarde, as árvores densas que salpicam o bairro jardim paulistano fazem bonito, compondo com as nuvens carregadas, plúmbeas e invocadas. A chuva e seus antecedentes como um elemento pictórico.
Escrito por bruno zeni às 17h19
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Outono de dias claros e céu seco. Um azul que fere os olhos. Ciscos sedimentados sobre a garganta. Calor, dia sem data. Ida ao shopping center, onde evitar os olhares é uma estratégia de preservação da espécie. Como num zoológico humano, as bestas arrastam-se, alimentam-se, são entretidas com luzes de vitrines bem cuidadas. Semisselvagens, pois os bichos perigosos são mantidos à distância.
Escrito por bruno zeni às 20h18
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Meus dentes entortaram, e apareceram manchas em sua superfície.
Escrito por bruno zeni às 15h02
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Perder a hora ao acordar. Ter sonhado calorosamente com mulheres desconhecidas. A acerola no jardim amadureceu, um vermelho intumescido, descobri ao acordar despenteado, olhando pela janela. Prédios em torno curvam-se sobre a casa cada vez mais ilhada. É preciso um esforço descomunal para se manter alheio à roda-vida regurgitante da informação. Tentativas de sedimentar o que se viu até agora. Helicópteros rondam por aí acima. Caminhões passam espalhando o jato putrefato do nosso diesel de qualidade inferior. Jornais se espalham pelo chão do quarto. Dores no corpo e a reminiscência de camarões e vinhos degustados na noite. Um filme para devolver, pilhas de trabalho aqui ao lado. Menos trabalho, mais ócio. Cenas de infância retornam porque estou reaprendendo uma língua que sei apenas parcialmente. Para viver no mundo, saber encadear fonemas, ideias e ideais idiossincráticos.
Escrito por bruno zeni às 12h42
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Varo os limites entre o ar e a água com minha pele de espuma e sal. Ofereço resistência às ondas, que arremetem contra meu tronco e, mais altas, atingem meu pescoço e me lambem o rosto. O ar é claro e úmido, cheio de luz a pintar de intensidade tudo à volta. Morro e mata; mas não me afogo, solto na larga lâmina de ambiente marinho. O verde translúcido deixa entrever os redemoinhos de areia que a maré provoca entre o chão e a superfície. Qual o tom da água agora? Praia vermelha, no centro, próximo da muvuca, mas envolto em silêncio dos sons do mar, indo e vindo, que vão e vêm espumando e tombando, depois espumando mais, quente e arisco. Nado e me entrego aos humores marítimos. Todas as dores do corpo manejado se vão, em parte. Tento olhar a abóbada azul aqui em cima sem me assustar demais com a noção de que estou no fim da terra, à mercê do oceano, mar aberto, ainda que abrigado pelos recortes costeiros e pelo que restou da mata atântica do litoral norte.
Escrito por bruno zeni às 11h28
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Os sons da construção civil lá fora interferem na manhã suspensa em silêncio e ocupações absortas. Estou de olho no crescimento das plantas.
Escrito por bruno zeni às 12h42
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A manhã de segunda-feira lembra um dia suspenso no ar. Muito silêncio, acompanhado das ocorrências da construção civil. Enquanto cuido do jardim e corrijo textos dos meus insetos neófitos de carne, tento sentir o tempo e a tensão do estado de viver aqui.
Escrito por bruno zeni às 09h48
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Anotações para nova obra. Interior, dia. Vestiário masculino. Depois do squash, Max e Normando, dois jovens recém-casados, um deles ainda sem filhos, o outro pai de uma menina, conversam sobre suas vidas privadas, em tom levemente queixoso, mas ainda bastante mobilizados pelos primeiros anos de vida conjugal e familiar. [A princípio a vidas das respectivas esposas é um plano nebuloso, fora da narrativa.]
Escrito por bruno zeni às 10h14
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A luz do fim de tarde entre os prédios do centro inunda de melancolia as paredes exteriores dos edifícios. As fachadas são descoradas. Lavadas de água e sujeira. De que adiantam as cores encomendadas em reuniões de condomínio? Horário de verão: 18h29. Ainda faz um tanto de frio e o vento penetra pela janela, o céu está azul. As palavras não vêm. Não adianta. Parece tudo repetido. A manhã é mais inventiva. Agora não sai nada. Escrever pouco. O mínimo. Menos ainda. Talvez um pouco mais. Daqui a pouco. Indo e vindo dentro do apartamento. Vigiando as janelas da frente. Lembro de um texto antigo. Vai se repetir.
Escrito por bruno zeni às 18h35
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O blog cursodotexto foi criado para publicar textos, experimentações literárias e reflexões livres, sem propósito definido.
Escrito por bruno zeni às 11h40
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